Por Márcio Zoppi*

Ultimamente tem se falado muito de uma tecnologia muito eficiente na proteção dos ocupantes de um veículo em caso de acidentes: os airbags.

Desde 2014, a legislação brasileira exige que todos os veículos de passeio e comerciais leves comercializados “Zero Km” devem obrigatoriamente possuir pelo menos um airbag para proteção do motorista e um airbag para proteção do carona, em caso de colisão frontal. Há veículos que, além destes dois airbags, oferecem airbags nas laterais, para os joelhos e, às vezes, até mesmo no teto.

Mas ao contrário do que se pensa, esta tecnologia não é tão recente. Os airbags estão presentes em diversos novos clássicos como as primeiras BMW Série 3 trazidas na época da abertura das importações, os primeiros Omega, Tempra e, até mesmo, algumas unidades do Gol GTi “Bolinha” (eram ofertados como opcionais).

As primeiras tentativas de desenvolvimento dos conceitos que deram origem aos atuais airbags ocorreram nos anos 50 e 60. O grande problema era como inflar tão rapidamente uma bolsa. No início dos anos 70, o engenheiro americano Allen K. Breed desenvolveu o sensor que permitiria essa rápida inflação da bolsa. Com isso, em 1973, a Chevrolet ofereceu uma primeira série de 1.000 unidades do Impala (denominada Limited) no mercado americano, versão essa equipada com o sistema Air Cushion Restraint System ou simplesmente ACRS (em português “Sistema de Retenção por Colchão de Ar”).

Chevrolet Impala Limited com sistema ACRS

 

Material publicitário do sistema ACRS

Esse sistema (que durante a colisão cobria o motorista e os ocupantes do banco frontal com duas grandes bolsas) foi oferecido posteriormente em um lote adicional de veículos Cadillac, Oldmosbile e Buick, entre 1974 e 1976 (os registros apontam um total de 10.000 unidades fabricadas), e teve sua produção interrompida por não ter tido o sucesso de vendas que era esperado.

Em 1981, a Mercedes Benz fez a primeira implementação em larga escala do airbag (somente para motorista) no lançamento da classe S W126, sob a sigla SRS (Supplemental Restraint System ou em português “Sistema de Retenção Suplementar”).

Mercedes Benz série S com sistema SRS

Em 1987, a Mercedes-Benz passou a oferecer o airbag para o acompanhante (também de série) nos veículos da classe S, sendo considerada também a primeira montadora a oferecer em larga escala airbag para o carona.

Interior da Mercedes série S – os airbags estão alocados no acionador de buzina e no painel de frente com o carona

Mas o que é exatamente o airbag? O airbag é uma “bolsa” que fica alojada (sempre desinflada) em uma carcaça montada sobre um componente chamado deflagrador. Explicando de um modo bem simples: quando sensores instalados no veículo detectam uma desaceleração muito rápida do mesmo (o que caracteriza a ocorrência de uma colisão), uma descarga elétrica aciona o deflagrador que, por sua vez, dispara uma reação química que libera gás Nitrogênio. Esse gás infla a bolsa do airbag na direção do ocupante, evitando que o tórax e a cabeça do mesmo sejam brutalmente atingidos pelo painel, pelo volante (neste caso somente o motorista) e pelo para-brisa. Após o inflamento máximo (que ocorre nos momentos finais da colisão), a bolsa do airbag já começa a se esvaziar para evitar que o ocupante seja asfixiado.

Disparo dos airbags do motorista e do acompanhante em um veículo atual

Diferentemente do conceito apresentado pela Chevrolet nos anos 70, os demais sistemas de airbag trabalham em conjunto com os cintos de segurança e com a própria maneira como os componentes do veículo se deformam durante uma colisão. Como assim? Por exemplo, os cintos de segurança não devem travar antes que os airbags alcancem os ocupantes; da mesma forma, o disparo dos airbags não pode ser bloqueado se a ligação da bateria com o veículo for rompida durante a colisão.

Abaixo listo algumas perguntas e respostas bastante comuns sobre os airbags:

1) Dá para consertar um airbag depois que ele for deflagrado?  Após deflagrado um airbag não tem reparo. O que sobrou dele deve ser descartado e um novo airbag deve ser montado no veículo (obviamente se o conserto do veículo for possível).

2) É possível a instalação de airbags em veículos que não tem esse item? Não. Para que um sistema de airbag cumpra sua função corretamente, o veículo tem que ter uma série de preparações como painel e volante adequados para receber airbags, cintos de segurança com sistema de pré-tensionadores que trabalhem em sincronia com o funcionamento do airbag e um sistema eletroeletrônico que seja capaz: de identificar o nível de desaceleração mínima do veículo que caracterize o início de uma colisão; e, identificada a colisão, que seja capaz de sincronizar corretamente o disparo dos sistemas de pré-tensionamento dos cintos de segurança e das bolsas de airbag.

3) Se meu carro tiver airbag, eu posso andar sem cinto de segurança? Nunca. Durante uma colisão frontal, por exemplo, os cintos de segurança evitam que os corpos dos ocupantes sejam arremessados dos bancos, enquanto os airbags protegem o tórax e a cabeça contra a intrusão do painel e do volante de direção. Ou seja, airbags e cintos de segurança devem sempre trabalhar em conjunto.

4) O gás liberado para a deflagração do airbag é inflamável ou tóxico? Não. O gás que infla o airbag é o Nitrogênio, que não é nem inflamável nem tóxico. Na reação química que libera o Nitrogênio também é liberada uma pequena quantidade de um pó de silicato, que fica retida dentro do receptáculo do airbag, e que não tem contato com os ocupantes do veículo.

5) O que devo fazer se a espia do airbag no painel permanecer acesa após eu girar a chave na ignição (após a diagnose da partida)? Se isso acontecer é porque há falhas que impossibilitarão o airbag de funcionar numa colisão. Pode ser uma simples conexão incorreta do chicote elétrico do airbag (neste caso a correta montagem do chicote no airbag é suficiente para resolver o problema), pode ser uma falha de comunicação eletrônica entre os módulos eletrônicos do veículo que podem estar inibindo o airbag (neste caso são necessárias ações via sistemas como VAG/VAS) ou pode de fato ser uma falha no airbag (neste caso o airbag deve ser trocado).

Lembre-se: “sempre use o cinto de segurança, mesmo que seu carro seja equipado com airbags. A melhor proteção para sua integridade física (no caso de colisão do veículo) sempre provém do trabalho conjunto do airbag com os cintos de segurança.”

*Márcio Zoppi é entusiasta da história do automóvel brasileiro e professor de sistemas de direção na Escola de Restauração de Veículos Antigos (www.escoladerestauracao.com.br). Graduado e mestrado em engenharia mecânica automotiva, profissionalmente ele atua a mais de 15 anos no desenvolvimento de sistemas de direção para automóveis de passeio e veículos comerciais leves

 

 

 

 

 

Fotos: Divulgação

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