Por Wagner Coronado*

Há 22 anos meu Del Rey foi comprado de um tio para ser o carro de passeio da família e só saía da garagem nos finais de semana e viagens de férias. O serviço do dia a dia ficava a cargo de um velho e confiável Passat. Os anos foram passando e o Del Rey tomou o lugar do trabalhador Passat e, em seu lugar, muitos outros carros mais novos e confortáveis foram chegando.

Essa história tinha tudo para ser triste para este Ford dos anos 1980, mas as suas melhores viagens só estavam começando. Porto Seguro, Pantanal Matogrossense, Serras Gaúchas, Missões são só alguns dos lugares onde o Del Rey já esteve. No início com a família toda, mas os filhos foram crescendo e ele foi ficando apertado para todos. Daí para a frente, passou a fazer a maioria das viagens apenas com dois ocupantes, levando além do motorista, um “navegador” especialmente convidado, que podia ser o filho, filha, esposa, pai, mãe, tio, etc.

Em 1999, no Espírito Santo, a caminho de Porto Seguro, na Bahia

Porém, em 2007, um engavetamento acabou decretando sua perda total pela companhia de seguros. Só que a ideia de aceitar a indenização e entregar o que sobrou dele para a seguradora, em hipótese alguma, foi aceita pelos membros da família. Então, um longo processo de restauração foi iniciado e investida uma quantia equivalente ao seu valor comercial, contrariando qualquer bom senso econômico. Mas não poderíamos permitir que aquele veículo, que trouxe tanta felicidade à família, terminasse seus dias em um leilão, junto com anônimas carcaças.

 

Realizando a desmontagem da carroceria após o acidente

Como a viabilidade econômica não era uma das diretrizes, seu motor foi inteiramente refeito por mim e meu filho Raphael em minha garagem e convertido para rodar com gasolina. O motivo? Estender seu currículo de viajante para fora do Brasil, onde não havia etanol.

A princípio pensamos em adquirir um motor completo em um desmanche, mas a dificuldade de localização de um em bom estado nos fez decidir pela transformação, que teve apenas bloco e virabrequim aproveitados, o restante, como camisas, pistões, anéis, bronzinas, bombas de óleo e combustível, etc foram substituídos por peças novas.

Para a empreitada, a garagem de casa foi transformada em uma oficina dedicada ao Del Rey, que funcionava e se ampliava a cada dia. Como mão de obra, utilizamos minha experiência em mecânica de motocicletas, adquirida na juventude, somada à ilimitada vontade de fazer com as próprias mãos de meu filho Rapha, na época com 15 anos de idade.

Como o tempo era escasso, aproveitávamos nosso tempo livre que resumia-se a muitas noites e finais de semana que, somados, resultaram em três meses de momentos compartilhados entre pai e filho, tão divertidos quanto a própria viagem que era planejada.

No final do dia entrávamos em casa cobertos de graxa e exaustos, mas com a alma lavada. A próxima etapa era pesquisada durante os dias de intervalo e esperada com ansiedade para avançarmos com o projeto.

Além da diversão e nossa integração, o objetivo era nos preparar para futuros destinos que pretendíamos realizar sozinhos e poder sanar possíveis problemas mecânicos em lugares distantes e sem recursos.

Hoje, com o conhecimento de escolas de mecânica, como a que damos aula (www.escoladerestauracao.org.br ), poderíamos aprimorar nossos conhecimentos ainda mais, fazendo cursos juntos, como os diversos pais e filhos que já tivemos como alunos e encontram prazer em uma atividade em comum.

Motor sendo refeito e convertido para gasolina

Influenciados pela fama do Uruguai e seus carros antigos ainda e nossa paixão pelo tema, escolhemos este país como destino de nossa próxima viagem. A viagem teve data marcada para julho de 2009 e prevíamos visitar as cidades de Punta del Este e Montevidéu. Nosso primeiro dia foi também o de maior deslocamento de toda a viagem, com um trajeto de 850 Kms entre as cidades de São Paulo e Vacaria (RS). Saímos cedo da Capital paulista, às 6h, e chegamos  por volta das 18h em Vacaria. O único ‘problema’ que enfrentamos foi o frio, mas como saímos preparados para um inverno polar isso não chegou a ser um inconveniente.

Pernoitamos em um hotel que costumamos ficar quando visitamos as Serras Gaúchas e, como de costume, checamos os fluídos pela manhã quando identificamos um preocupante consumo excessivo de óleo de motor, imediatamente repomos pouco mais de meio litro com o pequeno estoque reserva de três litros que levávamos e seguimos viagem para o nosso segundo trecho, que previa a cidade de Pelotas, mas não sem antes parar para almoçar em um agradável restaurante que já conhecíamos na cidade serrana de Nova Petrópolis, só que para isso tivemos que esperar uma hora para que ele abrisse.

No restante da viagem, ao atravessarmos o rio Guaíba, passamos um longo trajeto com fortes rajadas de vento que fizeram o Del Rey balançar um bocado, mas no final da tarde chegamos ao nosso destino, cansados, mas bem. A cada posto que parávamos para abastecer o Del Rey ganhava um elogio de algum frentista pelo seu bonito estado de conservação, o que alimentava o ego dos proprietários.

Com uma previsão de se deslocar poucos 250 Km até o Chuí, percorremos o trecho chamado “Rota Extremo Sul”, a caminho da fronteira com o Uruguai. A estrada foi uma grande reta, porém percorrida devagar e com muita atenção, devido à travessia da Reserva do Taim, onde animais silvestres cruzam perigosamente a pista (ou seriam os carros que cruzam perigosamente a reserva?). Neste trecho, os postos de abastecimento são muito poucos. Chegamos a cruzar mais de 100 Km sem avistar nenhum deles, portanto para quem pretende fazer o mesmo é recomendável sair abastecido de Pelotas.

O consumo de óleo se repetiu, identificando que algo havia de errado, apesar do funcionamento perfeito do Del Rey e um consumo de combustível surpreendentemente bom, sempre acima de 15 Km/l.

Chegamos na última e interessante cidade do extremo sul do Brasil, o Chuí, que é dividida por duas avenidas de mão dupla e paralelas, repletas de Free Shops (uma verdadeira tentação com seus preços livres de impostos), sendo uma no Brasil e outra no Uruguai. Chegando por lá nos fartamos em uma das muitas churrascarias locais e exploramos a cidade durante o resto da tarde.

Até a próxima, onde contaremos o percurso internacional da viagem.

Wagner Coronado é Tecnólogo de Soldagem e consultor de empresas da área automobiliística na Synergic Consultoria e Treinamento. Professor da Escola de Restauração de Veículos Antigos (www.escoladerestauracao.com.br), Coronado ensina a construir carros novos, mas é pelos velhinhos que seu coração bate mais forte. Gosta de viajar com eles e escrever sobre suas histórias

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