Por Carlos Olail*

Poucos componentes de um carro enganam mais que o filtro de ar. Sua aparência e fácil manutenção passam a impressão de um funcionamento simples e óbvio. Porém, nada é menos verdadeiro que isso.

Explico: 75% do volume de partículas aspiradas pelo motor para a combustão têm tamanhos entre cinco milésimos de milímetro (0,005mm) a um décimo de milímetro (0,1mm), o que torna praticamente impossível que o papel funcione como uma simples rede que garanta que nenhuma dessas partículas, altamente prejudiciais à vida útil de todos os componentes do motor, seja absorvida e misturada no combustível e no óleo do motor.

A ideia básica do elemento filtrante do ar é funcionar como uma espécie de labirinto. As partículas mais pesadas e maiores tendem a colidir com as fibras do papel, perdendo a velocidade e desgarrando do fluxo de ar. Estas partículas acabam ficando presas nas fibras ou caindo no fundo da caixa do filtro de ar.

Partículas médias e pequenas também colidem com as fibras do papel e terminam agarradas nelas. Isso ocorre por conta do acúmulo de carga eletrostática gerada pelo ar em alta velocidade que passa pelas fibras.

Essa ideia de criar um labirinto que diminua a velocidade das partículas e se aproveitar de um efeito de “cola” das cargas eletrostáticas, gera uma eficiência que chega a 98% de limpeza das partículas maiores que quatro milésimos de milímetro (0,004mm).

Mas, por que falar sobre a atual filtragem de ar se essa é uma seção que tem como tema carros antigos? A resposta é: porque nem sempre foi assim!

O nosso velho conhecido Fusca utilizou, desde a sua chegada por aqui até meados da década de 70, um filtro de ar com banho a óleo.

Composto de uma carcaça metálica com placas que desviam o fluxo de ar aspirado, um emaranhado de fibras chamado de elemento filtrante, uma tampa e uma fina camada de óleo no fundo da carcaça, esse filtro também usa das ideias de ser um labirinto e colar as partículas, mas faz isso de outra forma.

As partículas aspiradas são lançadas contra a placa de desvio de fluxo de ar. Isso faz com que percam a velocidade e fiquem grudadas, porque a parede está sempre sendo lambuzada de óleo devido ao movimento do carro.

As partículas menores que escapam dessa parede acabam grudadas nas fibras inferiores do elemento filtrante que, além de um labirinto também está lambuzado pelo óleo. Após todo esse circuito o ar limpo é sugado pelo carburador.

Por fim, quando o motor está desligado, as partículas escorrem para o volume de óleo que está no fundo, por gotejamento.

Como curiosidade, nos anos 60, o filtro do Fusca produzido localmente teve como matéria-prima para o elemento filtrante a fibra de coco. Esse sistema de filtragem de ar, embora menos eficiente que o moderno filtro de papel, tem vantagens quanto à tolerância de tempo para manutenção pois não diminui a potência do motor por não fazê-la. Talvez isso tenha contribuindo para o sucesso do Fusca quando chegou a um país onde comeu muita poeira.

Restauração do filtro de ar do fusca 67 alemão

*Carlos Olail de Carvalho Jr é Engenheiro mecânico com especialização em Dinâmica Veicular, com experiência de 23 anos em desenvolvimento de componentes e sistemas para veículos de passeio e comerciais, e também professor da Escola de Restauração de Veículos Antigos (www.escoladerestauracao.com.br)

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